1972 – a partida que ainda não acabou

1972 – a partida que ainda não acabou

O ano era 1972. Medalhas olímpicas – sonho e desejo de milhões de atletas. Muitos ficariam felizes por apenas participarem da Olimpíada, mas por incrível que possa parecer, há quem se recuse a receber uma.

De cabeça, você se lembra de algum atleta que se recusou a receber uma medalha? E se eu te contasse que foram 10? E que pelo menos um deles deixou em seu testamento para que seus descendentes nunca aceitassem a medalha? 

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O caso aconteceu em 10 de Setembro de 1972. Olimpíada de Munique, a vigésima da era moderna e primeira das Olimpíadas a ser transmitida ao vivo para o Brasil.

A seleção brasileira não vivia um bom momento. Depois do 4º lugar na Olimpíada anterior, conseguiu no máximo se classificar para a disputa do 5º ao 8º lugar.  Terminaram em 7º, porém isso abriu uma oportunidade para a arbitragem brasileira participar das semifinais e da final.

O árbitro brasileiro Renato Righetto vinha com a experiência de ter trabalhado nas Olimpíadas de 1960, 1964 e 1968, e foi escolhido para a final: um jogo entre EUA e URSS, que começaria as 23:50 de 09 de Setembro de 1972.

Aquele ano não tinha sido nada bom para as relações dos EUA e Rússia, que viviam um momento conturbado por conta da Guerra do Vietnã e o Watergate. Para piorar, apenas quatro dias antes, a delegação de Israel havia sido atacada na Vila Olímpica. 

Aquela era a última final da Olimpíada, a última medalha de ouro. Os soviéticos tinham 49 medalhas de ouro até o momento – 98 medalhas ao total, enquanto os estadunidenses tinham 33 de ouro e um total de 93. Se fora do âmbito esportivo as superpotências estavam em uma guerra velada, muito disso foi trazido a quadra, e como vários jornais da época escreveram, foi uma pequena guerra.

As seleções vinham com:

Atletas URSS

Anatoli Polivoda
Modestas Paulauskas
Zurab Sakandelidze
Alzhan Zharmukhamedov
Aleksandr Boloshev
Ivan Edeshko
Sergei Belov
Mikhail Korkia
Ivan Dvorny
Gennadi Volnov
Aleksandr Belov
Sergei Kovalenko

Atletas EUA

Kenny Davis
Doug Collins
Tom Henderson
Mike Bantom
Bobby Jones
Dwight Jones
Jim Forbes
Jim Brewer
Tommy Burleson
Tom McMillen
Kevin Joyce
Ed Ratleff

No início do jogo, a seleção soviética surpreendeu com Sergei Belov abrindo uma pequena vantagem que durou todo o primeiro tempo, terminando em 26-21.

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No segundo tempo, aos oito minutos, o líder de pontuação dos EUA, Dwight Jones, desentendeu-se com o soviético Mikheil Korkja, e ambos acabaram sendo expulsos. Além disso, o jogador Ivan Dvorny também foi expulso por protestar contra a arbitragem no banco. No minuto seguinte, Alexander Belov machucou Jim Brewer, que não pôde continuar. A seguir, a seleção soviética aumentou a vantagem de pontos para 10, quando então a seleção dos EUA começou a reação.

No lance crítico da partida, com sete segundos para o fim, Doug Collins roubou a bola de Alexander Belov e foi parado com uma falta dura de Zurab Sakandelidze quando estava indo na direção da cesta. O placar estava em 49-48 para a URSS.

1972
O árbitro brasileiro Renato Righetto durante a polêmica partida. Foto: The Guardian.

Os EUA ganharam direito a dois lances livres que foram convertidos por Collins, virando o placar para 49-50. Durante a cobrança, o técnico da URSS solicitou um tempo para a substituição de um jogador. Num momento de desatenção, os jogadores em quadra da URSS simplesmente foram repor a bola, e o cronometro gastou mais alguns segundos, causando uma gritaria no banco da URSS até que fosse paralisado o jogo.

Substituição feita, a URSS tentou uma jogada, mas quando chegou na mão do jogador soviético, o tempo já havia se esgotado e ele errou a cesta. Porém, ninguém se atentou para a falha, até aquele momento, em ter que voltar o cronômetro para três segundos. Os jogadores dos EUA começaram a comemorar em quadra, quando a comissão técnica da URSS atentou-se para o erro e foi reclamar com a arbitragem.

Formou-se uma confusão enorme. Foi nesse momento que o primeiro secretário da FIBA, Renato William Jones, saiu da arquibancada e foi falar diretamente a arbitragem para voltar a jogada e retornar o cronometro para três segundos. Posteriormente, de sangue frio, ele falaria que não deveria ter feito isso, pois a decisão seria tarefa única e exclusiva da arbitragem. Demorou vários minutos para se acalmarem os ânimos e reiniciar a partida. Os jogadores dos EUA estavam claramente desconcentrados, e a seleção soviética repetiu a mesma jogada que havia falhado, mas desta vez com êxito. Final de jogo, 51-50 para a seleção da URSS.

A comissão dos EUA entrou com um recurso logo após a partida, que foi vencido pela URSS. Os jogadores e comissão técnica se recusaram a participar da cerimônia da entrega das medalhas e elas se encontram até hoje no Comitê Olímpico Internacional.

Os atletas, comissão e até mesmo os jornalistas dos EUA nunca aceitaram a derrota, tanto que oficialmente consideram que a seleção masculina de basquete olímpico somente foi derrotada pela primeira vez em 1988. 

Essa vitória foi tão importante para a URSS que na abertura das Olimpíadas de Moscou, em 1980, foi Belov quem acendeu a pira olímpica. Apesar de tudo, Belov foi indicado ao Hall da Fama em 1992, tornando-se o primeiro estrangeiro a ter essa honraria, e no Hall da Fama da FIBA em 2007.

Mesmo hoje, tantos anos depois, após o fim ter sido apitado, ela ainda está longe de ter acabado.

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