Charles Barkley contra o mundo

Charles Barkley contra o mundo

Meu pai não gosta do Charles Barkley. E tudo por causa da percepção que o The Round Mound of Rebound passou nos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992. Talvez por achar que não pertencia, afinal, ele não era um nome global como Michael Jordan, Magic Johnson ou Larry Bird. De qualquer maneira, foi em Barcelona que ele anunciou ao mundo que estava pronto para se juntar ao time das estrelas mais conhecidas pelo mundo. Quer o mundo queira ou não.

O americano feio

Não podemos negar, existe um estereótipo do americano pelo mundo. Normalmente, pensamos no americano como aquele turista que fala alto, exige que todos falem inglês mesmo não falando uma palavra do idioma local. Uma pessoa arrogante. David Stern e a NBA não queriam passar essa imagem para o planeta. Seria a primeira vez que a NBA teria os olhos do mundo totalmente em suas estrelas.

E aí vocês convocam o Charles Barkley para a seleção!? 

De fato seria impossível um Time dos Sonhos sem Barkley, mas a direção da seleção dos EUA deveria saber o que vinha pela frente. Enquanto Jordan, Magic e Bird eram embaixadores perfeitos para tornar a NBA um fenômeno internacional, Barkley abraçou com força o estereótipo do americano feio.

“Eu não sei nada sobre Angola, mas eu sei que Angola está com problemas”, disse o ala-pivô antes da partida contra a seleção africana. Parecia que Barkley previu o que vinha pela frente.

LEIA MAIS: Dennis Rodman e a seleção da Coreia do Norte: uma parceria exótica

O pequeno país africano foi o primeiro adversário dos Estados Unidos nas Olimpíadas. E, por alguns minutos, surpreendeu. Até o placar estar empatado em 7 a 7. Depois disso, o Dream Team deu um show de basquetebol. Defesa forte, contra-ataques rápidos com poucos dribles e muitos passes e uma “corrida” de 46 a 1 definiram a partida e mostraram como seria o restante dos Jogos. 

Herlander Coimbra. Foi nessa sequência de pontos dos EUA que ele cometeu um erro. Empurrou Barkley debaixo da cesta. Agora, nós conhecemos Barkley, nós sabemos o que vinha pela frente. O mundo ainda não sabia. 

Quem já acompanhava Barkley não ficou nem um pouco surpreso quando ele deu uma cotovelada no peito de Coimbra. Meu pai, que nunca foi de acompanhar basquete, ficou.

“Eu estava conversando com meu treinador quando, de repente, Barkley me deu uma cotovelada”, disse Coimbra após o jogo. A resposta não poderia ser mais clássica de Charles, “bom, ele deveria estar prestando atenção”. 

Las Ramblas de Barcelona

Se Barkley jogava duro, mesmo nessas quase férias, ele festejava mais duro ainda. Chuck era presença certa nas Ramblas de Barcelona. No meio de mímicos, lojas de flores, restaurantes e bares, lá estava Barkley. Caminhando sem seus companheiros de time, mas nunca sozinho.

Quando perguntado o que fazia para sua segurança, ele levantava os dois punhos, “essa é a minha segurança”.

Enquanto todos permaneciam em seus quartos, Charles se misturou com o povo. As mesmas pessoas que vaiaram o jogador, corriam atrás da pessoa. “Claro que é chato assinar autógrafos toda hora”, disse para a Sports Illustrated na época. “Mas prefiro caminhar e ser incomodado do que sentar no meu quarto o tempo inteiro”.

Caminhando pelas ruas, um senhor correu até Barkley, apontou e riu do americano. Barkley encarou o senhor que seguiu rindo. “Droga”, balançou a cabeça, “você é mais louco que eu”.

“Ouvi dizer que esse Barkley era um cara ruim”, disse uma jovem. “Mas acho que ele é um cara legal”. Se ele fez o mundo odiar os EUA em quadra, fez Barcelona se apaixonar nas Ramblas

Cuidando dos negócios

Assim como seus companheiros, Barkley era sério na hora do jogo. Os EUA venceram as oito partidas das Olimpíadas, nenhum deles com uma diferença menor do que 32 pontos. Barkley liderou o time em pontos por partida, 21,6, e foi segundo em rebotes por jogo, 5,4. 

Se inscreva no canal do EC Basquete no YouTube!

Quando voltou para a NBA, ele seguiu mostrando que pertencia na conversa com os maiores da história. Em 1993 foi MVP pelo Phoenix Suns e levou o time para as Finais da NBA.

Em 1996, ele venceu outro ouro com os EUA, agora como o coroa do time, ocupando o lugar de Magic e Bird em 1992. Mostrou toda sua simpatia dançando YMCA com a torcida nos intervalos.

Mesmo assim, depois de tudo isso, meu pai ainda não gosta do Barkley. Quer saber? Aposto que Barkley gosta disso mesmo.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: