Dream Team e o maior jogo não televisionado

Dream Team e o maior jogo não televisionado

 

No dia 7 de abril de 1989 a FIBA votou para acabar com as restrições na participação de jogadores da NBA em suas competições. Uma injustiça foi corrigida, já que, jogadores com anos como profissionais não eram proibidos de jogar apenas por não jogarem na NBA. O que se viu foram anos de domínio americano. Começando em Barcelona 1992.

O Time dos Sonhos foi a maior concentração de talento que o mundo já viu. Os três melhores da história, Michael Jordan, Magic Johnson e Larry Bird, estavam lá. Junto deles, nomes como Patrick Ewing, David Robinson, Charles Barkley, John Stockton, Clyde Drexler e Scottie Pippen foram alguns dos que completaram a seleção dos EUA. 

O mundo viu o Dream Team atropelar a competição nas Olimpíadas. Mas, a maior partida já jogada foi privilégio de poucos.

Ah, Monte Carlo

No dia 22 de Julho de 1992, quatro dias antes da estreia dos EUA contra Angola, o time estava em Monte Carlo. Aproveitando o luxo que a cidade oferece? Não, treinando duro. De olho na competição, o treinador Chuck Daly resolveu fazer um último desafio antes da seleção partir para Barcelona. 

Acontece que, na úmida Monte Carlo, os americanos tiveram problemas para engrenar. A verdade é que, jogar 18 buracos de golfe por dia e frequentar festas e cassinos pela noite esgota a energia até de alguém como o sempre competitivo Jordan. 

Por volta de 12 horas antes do maior jogo da história, os Estados Unidos jogaram um amistoso contra a França. O time estava sem energia. Jordan, por sinal, havia chegado no hotel momentos antes do time sair para o ginásio, às 8:30 da noite. Eventualmente, o time engrenou no jogo, mas deixou os franceses liderarem por duas vezes, até tomar conta e vencer por 111 a 71.

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Após ver o time sem um instinto competitivo, Daly resolveu mudar as coisas. Até então, o treinador costuma terminar qualquer jogo treino do Dream Team em um empate. Que maneira melhor de manter grandes egos sob controle do que não deixar ninguém ter vantagem para contar?

Dessa vez, no entanto, era hora para ligar a competitividade de todos. Hora de um jogo com um vencedor.

A maior partida de todos os tempos

Pete Skorich. Esse é o nome da pessoa com a única câmera no ginásio fechado. Nove dos melhores jogadores da história, e Christian Laettner. Stockton e Drexler assistiram da lateral, recuperando lesões. 

De azul, Magic, que uma temporada antes havia terminado em segundo na votação para MVP, Barkley, Robinson, Chris Mullin e o único universitário do time, que deveria ser Shaquille O’Neal, mas isso é outra história. De branco, MJ, Bird, Pippen, Ewing e Karl Malone. “Vamos lá, deem tudo que vocês têm”, disse Daly.

Isso era tudo que Magic queria, precisava. Desde novembro de 1991 ele estava aposentado. Após anunciar o diagnóstico positivo para HIV, ele não conseguiu apoio dos adversários para jogar. Mas sua fome por vitórias continuava intacta.

O começo da partida pertenceu ao time azul. Uma cesta e falta para Barkley, um rebote e bandeja para Laettner e mais uma bandeja de Barkley e o time de Johnson liderava por 7 a 0.

No meio de tudo isso, Magic é só sorrisos. E não para de falar. “Vai trabalhar, CB! Vai trabalhar”, ele grita, enquanto dá instruções para que Barkley se posicione no post up. “Não force se você não tem”, dessa vez o alvo é Laettner, que acabou de forçar um drible pelo fundo da quadra e perdeu a bola. Claro que, no melhor estilo faça o que eu digo não o que eu faço, na próxima jogada Magic força a passagem pelo meio de MJ e Pippen e ganha a falta. “Isso foi uma falta?”, pergunta, incrédulo, Jordan.

Após Laettner levar mais um toco de Ewing, Magic pediu “foi cesta”, alegando que o toco foi na descendente. “Ele não pediu”, foi a resposta de Jordan. “Foi cesta”, “ele não pediu”, repetiram, como crianças jogando no parque. 

Momentos depois, Mullin fica livre pela porta dos fundos, Magic dá o passe perfeito e grita “WHOOOO” enquanto Mullin coloca o time azul na frente por 13 a 4. Mullin pode não ser rápido, mas lê o jogo como poucos. 

Jordan chega no jogo

Quieto até então, MJ viu o suficiente. É  hora de tomar conta do jogo. No primeiro ataque após essa decisão, Jordan força a troca de marcação e, com Robinson marcando na linha dos 3, converte um chute na cara do pivô. Magic volta e arremessa marcado por Jordan. “De volta para você”, ele grita com a bola no ar. Chuá.

Jordan converte um arremesso só para ver Magic encontrar Barkley no próximo ataque. O ala-pivô do Phoenix Suns gira e arremessa por cima de Malone. Cesta. “Para cima dele, Charles. O dia inteiro!”, Magic não para de falar. Para devolver o lance, Jordan passa para Malone, que devolve a cesta. O time de Magic lidera por 17 a 11.

Magic tentava manter Jordan sob controle. Depois de um passe para Robinson, e mais dois pontos, Magic falou “o dia inteiro, o dia inteiro”. E  então, cometeu seu erro, “os Jordanários estão caídos”. Jordanários era um apelido depreciativo que o Chicago Bulls ganhou da imprensa que considerava MJ um individualista. Jordan e os Jordanários. 

Jordan mudou na hora. Ficando mais sério. Mas Magic não calava a boca. Ele nunca calava a boca. Depois do árbitro, um italiano, dar uma falta de Malone em Barkley, Magic não aguentou. “É! Eu amo isso! Amo! Não estamos no Chicago Stadium mais”, insinuando que Jordan era ajudado em sua casa.

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Em um contra-ataque liderado por Jordan, Pippen e Ewing correram pelas laterais. A jogada terminou com um passe no ponto certo, uma enterrada de Pip e a primeira liderança do time branco.

Barkley, que começa a provar que realmente pertence às conversas dos maiores da história, se recusa a parar. Ele cava uma falta em Malone. “Um homem cansado costuma perder lances-livres”, Jordan fala para o amigo. Barkley converte o primeiro mas erra o segundo.

Bird, que sofria com dores nas costas, finalmente aparece no jogo. Ele rouba uma bola de Magic, puxa o contra-ataque, faz uma finta que, praticamente, tira Barkley de dentro de seus calções e faz a bandeja. 

Enquanto isso, Jordan mostra seu arsenal completo. Uma de suas famosas bandejas acrobáticas antecede um chute de 3. Quando Mullin chega para contestar o arremesso MJ avisa, “tarde demais”, enquanto a bola entra na cesta. Perdendo por 35 a 32, o italiano marca uma falta de Magic, “Chicago Stadium!”, o maior armador da história grita. “Tudo que eles fizeram foi trazer o Chicago Stadium para cá”.

A partida acaba

Finalmente acaba o tempo e o time de Jordan vence por 40 a 36. Para comemorar, e irritar um pouco os adversários/companheiros de time, Jordan começa a cantar a música que o gatorade fez para sua propaganda. “I wanna be like Mike”.

Anos depois, Magic definiu a partida de uma maneira que só ele poderia fazer. “Deixa eu falar algo, seria pior se [Michael] tivesse perdido. Porque eu esqueço as coisas depois de um tempo. Mas o Michael? Ele nunca esquece. Ele não esquece de nada”.

A maior partida já jogada está nos arquivos de algum jornalista. Passou da hora de liberar para a gente ver.

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